os loucos são certos numa sociedade errada
Lao Tsé
A Vida em Boião
Em Boião – ou no boião – cabem todos os rótulos e etiquetas que regem a sociedade em que vivemos. Criei a sociedade Boião, numa tentativa de explicar e apresentar a quem nos vê por fora, como funciona a sociedade - não só a portuguesa, como tantas outras – através da sátira que, independentemente do talento de quem a faz , não deixa de ser um recurso eficaz e pedagógico.
Todos os domingos – espero que sem excepção - o blog vai crescer, tal a riqueza do tema. Há tanto para escrever sobre uma sociedade (e ainda mais para satirizar), que não temo que falte assunto, antes que falte interesse dos leitores. Como me descrevo num dos meus outros blogs (o sídrome da blogueirice, quando ataca não dá tréguas), o DigoEu, sou um espectador atento do Mundo e o que vejo, consegue ter tanto de hilariante – ou Hilário – que acredito que o blog tem espaço quase inesgotável para crescer.
Se forem como eu, que não gosto de ler textos grandes no ecrã, imprimam. Se forem como eu que não gosto de gastar papel com coisas sem interesse, imprimam em folhas de rascunho.

Ia na sua terceira hora de sono. O cão gania, com tanto ressonar. O gato miava, com tanto ganir. Lá em cima, a sua filha entrava pela janela do quarto, depois de uma noite que, segunda consta no seu diário, foi “tipo brutal, tipo…”.
A campainha tocava incessantemente. Olhou para o despertador, eram 7 da manhã. Dentro de meia hora tinha que acordar de qualquer maneira, mais valia ver quem era o “safado”, nas palavras do próprio, que não tirava o dedo da campainha.
Espreitou pelo buraco da fechadura, que era a única forma de saber quem estava do outro lado da porta. Umas pernas compridas, cobertas por umas calças de ganga azuis, tingidas pela lixívia – ou teriam sido compradas assim? – com a singularidade perturbante de terem a braguilha aberta, que permitia ver um Pai Natal a dar uma palmada numa rena de peitos estonteantes.
- Diga lá, se faz favor.
- Muito bom dia, senhor… – o interlocutor estendeu-lhe a mão esquerda, já que a direita segurava um estranho objecto.
- Engenheiro.
- Senhor Engenheiro…
- Sim, sou eu. E o senhor…
- Bacharel em Estudos Teórico-Práticos Aplicados à Análise Detalhada do Organismo Animal. Terminei com média de 11.87, porque a professora de Abertura Gradual e Cuidadosa da Pele Animal Com Intuito de Estudar o Seu Interior, não foi com a minha cara, para falar depressa e bem.
- Então e o que deseja?
- Apresentar-lhe este belíssimo aspirador/despertador/padeiro/cortador de fiambre/telemóvel.
- Olhe, meu amigo, para fazer uma venda à porta de qualquer casa, aqui em Boião, tem que se dirigir ao Departamento de Atendimento Geral Ao Vendedor, para pedir a senha rosa, para ir para a fila B1, onde terá que explicar o que pretende vender. Depois, deixe o seu contacto, que dentro de 17 dias úteis, entrarão em contacto consigo.
- Muito obrigado pela atenção, Senhor…
- Engenheiro.

Boião
Boião sofreu, há muitos séculos, uma invasão de uma civilização de outro continente que, pela longevidade da sua permanência, deixou alguns resquícios na sociedade boianense. Entre eles, a arte de regatear e a obsessão pela burocracia, assumiram particular preponderância e enraizaram-se de tal maneira, que o preço das casas ou dos carros, muitas vezes é acompanhado da informação “Negociável”.
Quanto à supina importância da burocracia, as intermináveis filas para se tirar senha para ir para outra fila, para depois se ser mandado para outra fila, não evitando, no caminho, ir para outra fila para tirar senha para ir para a fila que se espera ser a última mas onde, afinal, nos aconselham a ir almoçar porque ainda está muita gente à nossa frente, serve de exemplo.
Em relação à geografia, Boião é, à semelhança da moral dos seus habitantes, altamente montanhosa, repleta de altos e baixos. Cortada a meio pelo Rio Saudade, tem cerca de 15 pontes a uni-la. Essas pontes, arquitectadas em diferentes períodos da história, partilham entre elas a beleza e são uma forte atracção turística.
A agricultura tem sido descurada, em face da elevadíssima formação académica dos habitantes e hoje, Boião importa quase tudo o que consome.
Como em tantas outras sociedades, as relações pessoais são muito formais. O nome próprio acaba por ser substituído pelo título, que pode ir de Doutor a Muy Honroso e Ilustre Senhor, a que se segue o apelido. A título de exemplo, temos o Cristóvão Roleta, que depois de finalizar a sua licenciatura em Análise Qualitativa, Quantitativa e Interpretativa da Água, se tornou Doutor Roleta e que, depois prémios e honras no estrangeiro, voltou a Boião, passando a ser o Muy Honroso e Ilustre Senhor Rolletta (note-se que, atingido um certo patamar na exigente hierarquia social, só um “L” ou só um “T”, torna-se pouco dignificante).
A nível político, impera a rotatividade. Antes das eleições, passa um concurso na televisão, de elevadíssimo sucesso (antes de começar, tem que se esperar que o locutor esteja cerca de 10 minutos a citar todos os patrocinadores, até passar a palavra ao apresentador), intitulado “Eu Prometo”. O vencedor do concurso, ganha um conjunto de prémios, que vai do televisor plasma (não há casa em Boião sem plasma e sem torradeira, geralmente oferecida em ocasião do casamento) à nomeação para Governante-Mor de Boião.
Em suma, Boião é uma sociedade como tantas outras. De resto, as agências turísticas de nações orientais, promovem viagens ao ocidente e atribuíram a Boião o slogan: “Visite a sociedade modelo”.
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