Rótulos e vida social

Parte I

   O Engenheiro não foi sempre Engenheiro. Quando era miúdo, introvertido, sentava-se a um canto do recreio, de braços em volta das portas e não se lhe conhecia um amigo.

Certo dia, ganhou coragem e foi pedir aos colegas para brincar com eles. Levou uma lambada. Os colegas passaram a colar-lhe um rótulo nas costas: Cromo. E assim ficou, com um rótulo nas costas a dizer Cromo.

   Antes de ser Cromo, o Engenheiro era o Caixa-de-Óculos, por razões óbvias. Depois de ser Cromo, o Engenheiro, que já fora o Caixa-de-Óculos, foi o Concorde: podíamos dizer-lhe o que quiséssemos, por absurdo que fosse, que o Concorde, que já fora Cromo, depois de ser o Caixa-de-Óculos e antes de ser Engenheiro, anuía em concordância, com medo de criar inimizades.

   Hoje, homem de sucesso, o Engenheiro vive num faustoso casarão, com 11 quartos, 5 casas de banho, uma cozinha, um salão de jogos, uma gigante sala de estar e uma, também ela gigante, sala de jantar.     

  

   No quintal, onde podemos encontrar a mais profícua plantação de maçãs de Boião (e arredores, acrescenta o Engenheiro) – que serve de sustento ao Carroças, o maior bêbado de que há memória, que as rouba e vende ao Solas, que prefere andar descalço – vive o cão. O Cão do Engenheiro ladra, uiva e há quem desconfia que também mia, pela noite fora, numa ensurdecedora cantilena em homenagem à sua eterna amada, a Cadela da Velha, que foi atropelada à noite, faz agora dois anos, pelo carro do Aerocolia, que tem uma grande crise de flatulência na presença de mulheres e de porcos-da-Índia, vá-se lá saber porquê.

   Na encantadora mansão, vive a Mulher do Engenheiro, a Filha do Engenheiro, o Mais Novo do Engenheiro e a Mãe da Mulher do Engenheiro. O Mais Velho do Engenheiro casou com a Mais Nova do Arquitecto, vai fazer agora seis anos.

   A Filha do Engenheiro é, desde criança, embeiçada pelo Jardineiro, que por sua vez não tira os olhos da Rapariga dos Correios, mesmo sabendo que ela é casada com o Doutor Ratto (que teve direito a acrescentar um “T” ao nome, ao aparecer pelo terceiro mês consecutivo na revista cor-de-rosa À Espreita, cujo slogan é “Diga adeus à privacidade”).

  

   Certa tarde, no dia em que fez 16 anos, a Filha do Engenheiro ganhou coragem e foi falar com o Jardineiro:

   – Olá Jardineiro! – os seus olhos brilharam e os seus cabelos eriçaram de tal modo que conseguiu interceptar uma conversa telefónica entre a Rapariga dos Correios e o Vitaminas, um rapaz tão energético que consta que é mais rápido que o Cão do Engenheiro.

   – Olá Filha. Posso tratar-te só por Filha?

   – Trata-me como quiseres… – corava de tal forma que não conseguia esconder o embaraço – Então, estás bom?

   – Eu estou, e tu?

   – Eu também. – esgotara-se o léxico sedutor da Filha do Engenheiro – Olha, hoje faço anos!

   – Parabéns, Filha. Se soubesse tinha-te dado um presente. Mas também, não sabia o que te dar…

   - Eu digo-te o que me podes dar… – a adolescência tem o condão de transformar a mente mais sã num emaranhado de depravação – Olha, a minha mãe hoje vai fazer um jantar e tu és o meu convidado. E escusas de recusar, que já decidi que vais.

 

 

 

 

   O Jardineiro cresceu no seio de uma família pobre e não tinha a menor ideia de como se comportar em casa de gente tão ilustre. Vestiu o seu melhor fato, engraxou os melhores sapatos e pôs o melhor – e único – relógio do seu pai. Não percebeu a razão do convite de uma rapariga com quem nunca havia falado mais de um minuto de seguida e, na verdade, dispensava-o.

   A psique feminina era absoluto mistério para ele, como já havia sido para o seu pai, que conheceu a Mulher do Velho Jardineiro de um modo que não se lembra. Não se lembra como a conheceu, o que lhe disse, nem o que fez para um dia a ver grávida e, meses depois, ter na mão o seu querido filho, muito parecido com o Muy Honroso e Ilustre Senhor Cancella, patrão da Mulher do Velho Jardineiro. A verdade é que sente muito orgulho pelo seu filho, que nunca lhe deu qualquer problema e o trata com grande estima.

  

   O Jardineiro estava tão nervoso por ir conviver num meio que não é o seu, que nem sabia se havia algum protocolo na forma de tocar à campainha. Pelo sim, pelo não, tocou três vezes, como fazia em casa.

 

 

Continua no próximo domingo

Explore posts in the same categories: Uncategorized

Tags: , , , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Comment: