Rótulos e vida social
Parte II
O Engenheiro espreitou pelo buraco da fechadura e viu umas calças que já haviam sido suas. Já sabia quem estava do outro lado. Estimava muito o Jardineiro. Um rapaz inteligente, dedicado e incrivelmente parecido com o seu amigo Muy Honroso e Ilustre Senhor Cancella.
– Olá rapaz, entra.
– Muito boa noite, senhor Engenheiro. Trago-lhe umas rosas.
– As rosas não devem ser para mim… Diz-me lá, voltaste a seguir os conselhos do teu pai, não foi? É um grande homem, sem dúvida, mas não percebe nada deste coisas. As rosas são para a minha filha, rapaz.
– Pois claro, que disparate. Nesse caso, trago-lhe um perfume.
– Oh rapaz… Olha faz assim: entra e fica à vontade. – uma frase digna de Horatio Caine.
Em Boião, as mulheres, quando chegam aos 40 anos, por motivos que o Jardineiro desconhecia, ficavam todas loiras. Era o que se via, em casa do Engenheiro. Isso e muitas alterações morfológicas que ele não entendia: unhas encarnadas, pele de tez ligeiramente alaranjada, homens com cabelos castanhos em cima e grisalhos de lado, homens que era capaz de jurar que eram calvos, mas que afinal têm fartas cabeleiras, que se deslocam com o avançar da noite e raparigas com algo que se assemelhava a papel higiénico a sair dos seus peitos.
Lá estava ela, a Filha do Engenheiro. As suas unhas tornaram-se pretas – “querem lá ver que miúda andou a mexer nas minhas plantas”, o cabelo estava esticado – “Deve ser das brincadeiras com o Mais Novo do Engenheiro, que tem a mania de lhe puxar os cabelos”, os seus peitos tinham crescido – “picadas de abelhas… andou mesmo a mexer nas minhas plantas!”, a sua tez também estava subitamente mais escura – “e deve ter estado muitas horas de volta das plantas, para se ter queimado tanto” e tinha um cordão que lhe saía de dentro das calças, na parte da trás e que parecia que lhe dava a volta à cintura – “deve ser para manter as meias para cima. Agora até fazem suspensórios para as meias, estou a ver”.
– Então, o senhor diga-me, tem quintas? – a voz nasalada pertencia a uma senhora muito morena, com as pálpebras brancas “deve andar sempre de óculos escuros. Se calhar o marido bate-lhe”.
– Às quintas, infelizmente estou ocupado, que eu faço um biscate em casa da Coitada Foi Abandonada Pelo Marido, mas tenho as tardes de sexta disponíveis, se estiver interessada. Que tipo de plantas tem?
– Tem sentido de humor, o rapaz. – e deu uma gargalhada tal, que o rapaz estava capaz de jurar que viu um bocado de um queque vir-lhe à boca.
Não faltava ninguém da alta sociedade de Baião, naquela festa. Até lá estava o Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas, um riquíssimo proprietário, outrora o mais famoso toureiro de Boião (e arredores, acrescenta o próprio, com a concordância do Engenheiro). O Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas era casado com a mulher mais bonita que o Jardineiro alguma vez vira. Na verdade, considerava a Assistente Pessoal do Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas, que preferiu manter o nome de solteira, a mulher mais bonita de Boião (e arredores, acrescenta o Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas, com a concordância do Engenheiro e com um “Oh se é…”, de todos os homens presentes na sala).
Sentou-se à mesa e pensou que o que via era uma homenagem ao Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas: uma infinidade de garfos e facas. Continuou a prospecção e assustou-se com a quantidade de copos e colheres que tinha à sua frente – “os copos é um para cada vinho, sim senhor, faz sentido e as colheres, presumo que seja sinal de que sobremesas não faltarão”.
– Isto é um buffet – explicou a Mulher do Engenheiro, apontando para a mesa repleta de iguarias – sirva-se e sente-se ao meu lado, que me faz companhia. Não cabem todos sentados, mas para si há lugar.
Pois bem, aquilo a que o Jardineiro e o Velho Jardineiro chamavam de mesa, na sua humilde casa, na mansão do Engenheiro é um bufê. Quando o Velho Jardineiro ouviu essa história, resolveu passar a chamar bufê à sua mesa e mais, no dia seguinte, foi comprar um bufê novo para a sala de jantar, que o seu já era herdado do avô.
– Quero um bufê para a sala de jantar, barato mas bonito. Pode ajudar-me?
– Lamento, caro senhor, mas aqui não disponibilizamos o catering, apenas o mobiliário.
“Afinal o bufê também pode ser chamado queiteringue”, pensou o Velho Jardineiro. “As coisas mudam com o tempo, não haja dúvida”.
Continua no próximo domingo
Tags: a vida em boião, boião, buffet, catering, etiqueta, festa, jardineiro, rótulos, sociedade
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