Rótulos e vida social
Depois de servir o que Sancho Pança – ilustre escritor com uma proeminente barriga, que lhe valeu a alcunha que desconhecia – lhe sugeriu, e que era basicamente tudo o que havia disponível, o Jardineiro sentou-se ao lado da Mulher do Engenheiro. A Filha do Engenheiro cochichava com as amigas, as tais cujos peitos eram tão estranhos que parecia que estavam envolvidos em papel higiénico e apontou para o rapaz. Entre risos de hiena e “ai tipo, tens razão, tipo…”, a conversa das raparigas começava a atrapalhar o Jardineiro, que estava à deriva num mar de talheres.
– Oh rapaz, faz como eu: espetas o garfo e levas tudo à boca, que os dentes fazem de faca. Deixa as etiquetas para as senhoras. – o conselho vinha do Sancho Pança.
“Como é que ele sabe das etiquetas?”, pensava o Jardineiro. Pelo sim pelo não, tirou o rolo de etiquetas a dizer “Vaca 7,5 moedas o quilo”, que tinha no bufê de casa e que guardara no bolso para deixar no carro, mas que se esqueceu, e distribuiu as etiquetas pelas senhoras.
A ousadia valeu-lhe uns valentes tabefes, dados pelas senhoras e umas valentes gargalhadas, dadas pelos senhores e pelo clã dos peitos esquisitos. O jardineiro, todos os sábados, ajudava na mercearia do Calvo – cujas prateleiras estavam tão carecas como o dono – e tinha feito aquelas etiquetas à mão.
De estômago cheio e camisa manchada pelos salpicos de vinho que o Sancho Pança libertava de cada vez que falava, o Jardineiro levantou-se para ir à casa de banho limpar as manchas. Não foi preciso. De imediato apareceu-lhe um simpático senhor, todo aprumado, ao ponto de ser o único convidado de laçarote, que lhe trazia um copo com um líquido amarelado.
– Moet & Chandon?
– Muito obrigado, caro senhor. Adivinhou-me o pensamento.
Aplicou de imediato o tira-nódoas oferecido pelo simpático senhor, que o Engenheiro tratava por garçon. O efeito do tira-nódoas foi imediato – “tenho de dizer ao Calvo para vender este tira-nódoas. Já me esqueci da marca, mas já pergunto ao senhor”.
– Garre Som! – chamou. E lá vinha ele, com mais tira-nódoas.
À saída, as senhoras que iam abraçadas aos maridos cambaleantes, eram unânimes. Todas tinham gostado da festa, à parte o indelicado do Jardineiro. “Foi óptimo”, diziam umas. “Foi fantástico”, diziam outras. “Foi tipo lindo, tipo…”, dizia o clã dos peitos esquisitos em coro.

Na manhã seguinte, lia-se na capa da À Espreita: “Jantar volante em honra da Filha do Engenheiro foi um sucesso. Veja as fotos inéditas!”.
A partir daí, passou a jantar-se-volante, no novo queiteringue do Velho Jardineiro (o bufê tinha ficado D Modê e o Velho Jardineiro não gostava desse tipo de caruncho).
Quando o Jardineiro foi ao Café Cheio, a tasca do Emigrante, contar aos seus amigos que pai comprara um queiteringue novo para a sala de jantar-volante, ninguém quis acreditar. Até porque ninguém percebeu. Foram, então, ver o novo queiteringue do Velho Jardineiro e todos concordaram que era o queiteringue mais bonito que já tinham visto.
Foram, então, comemorar para o queiteringue de bilhar do Salão de Jogos do Matraquilhos, campeão em 1969 (1968, corrigiu o campeão) do desporto com o mesmo nome, do liceu O Cantor, hoje a escola EBC+S=47 O Futebolista Que Ganha Mais Do Que O Engenheiro. Ninguém sabe ao certo o que significam as iniciais antes do nome da escola, mas o Crânio, o intelectual de entre os amigos explica: estrume bosta caganitos + seca – essa danada- é igual a 70 batatas, das quais 23 vão ser roubadas pelo Carroças, que as vai vender ao Solas, que por sua vez as vai vender ao Calvo.
No próximo domingo: Política – o Governante-Mor
This entry was posted on Agosto 31, 2008 at 7:39 am and is filed under Uncategorized. You can subscribe via RSS 2.0 feed to this post's comments.
Tags: a vida em boião, boião, etiqueta, festa, jardineiro, rótul, vida social
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Setembro 8, 2008 at 2:51 am
Não, deixa-te estar!!! Não vás tratar disso que não faz falta!!! FRITADELA DAS GRANDES!!! 5*