O Poeta

Quando lhe perguntaram porque tinha voltado a escrever, o Poeta respondeu: “porque tinha saudades de sofrer.” As palavras “saudade” e sofrer são, de resto, dominantes no campo lexical do Poeta.

Faz agora um ano que o Poeta deixou de escrever nos guardanapos do Café Cheio, sem que nunca ninguém percebesse o motivo que o afastou da única coisa para a qual tinha jeito (aqui, importa referir que muitos - para não dizer todos – consideram, de uma forma delicada que “jeito não será a palavra mais apropriada”).

Já todos os boianenses se tinham habituado à ideia de o sangue ter deixado de correr na veia poética do Poeta - passe a redundância, pleonasmo ou o que seja - até que, naquilo que constitui um choque para a comunidade boianense em geral e para os literatos em particular, saiu no Folhetim Boião no Vidrão uma série de poemas do supracitado artista. Destaco os mais relevantes de uma vasta panóplia de Poemas Dedicados:

Ao pássaro

Pergunto-lhe que notícias traz

da minha aldeia saloia.

Mas a única coisa que faz,

é largar-me uma poia.

 

Ao sexo

Tu que fazes gemer,

tu que sabes tão bem

Gostava de te fazer

mas não convenço ninguém

 

À chuvinha molha-parvos

Tão miudinha e irritante

tão ridícula e arrogante

Nem me consegues molhar…

nem molhavas um elefante

Ainda hás de me explicar

porque te achas tão importante

 

Ao pombo

Ris-te aí de cima

quando molhas um careca

Curioso paradigma

o de quem se molha em tempo de seca

 

Pintas o meu carro

Dás-lhe uma nova alegria

Ai se te agarro…

nem sei o que te fazia

 

O cão cá em baixo

e tu aí em cima

deixam qualquer gajo

sem vontade de fazer uma rima

 

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