Nota por demais importante

Publicado Setembro 22, 2008 por Nuno Abreu
Categorias: Uncategorized

Aqueles (dois ou três) que leram a apresentação do Blog, terão reparado que foi dito que todos os domingos seria publicado um novo texto, ou post na linguagem blogueira. Importa referir que, como boianense que sou, o Domingo surge como figura de estilo. Afinal de contas, o Domingo é quando um boianense quiser…

Um enorme boião para todos!

 

O Poeta

Publicado Setembro 22, 2008 por Nuno Abreu
Categorias: Uncategorized

Quando lhe perguntaram porque tinha voltado a escrever, o Poeta respondeu: “porque tinha saudades de sofrer.” As palavras “saudade” e sofrer são, de resto, dominantes no campo lexical do Poeta.

Faz agora um ano que o Poeta deixou de escrever nos guardanapos do Café Cheio, sem que nunca ninguém percebesse o motivo que o afastou da única coisa para a qual tinha jeito (aqui, importa referir que muitos – para não dizer todos – consideram, de uma forma delicada que “jeito não será a palavra mais apropriada”).

Já todos os boianenses se tinham habituado à ideia de o sangue ter deixado de correr na veia poética do Poeta – passe a redundância, pleonasmo ou o que seja – até que, naquilo que constitui um choque para a comunidade boianense em geral e para os literatos em particular, saiu no Folhetim Boião no Vidrão uma série de poemas do supracitado artista. Destaco os mais relevantes de uma vasta panóplia de Poemas Dedicados:

Ao pássaro

Pergunto-lhe que notícias traz

da minha aldeia saloia.

Mas a única coisa que faz,

é largar-me uma poia.

 

Ao sexo

Tu que fazes gemer,

tu que sabes tão bem

Gostava de te fazer

mas não convenço ninguém

 

À chuvinha molha-parvos

Tão miudinha e irritante

tão ridícula e arrogante

Nem me consegues molhar…

nem molhavas um elefante

Ainda hás de me explicar

porque te achas tão importante

 

Ao pombo

Ris-te aí de cima

quando molhas um careca

Curioso paradigma

o de quem se molha em tempo de seca

 

Pintas o meu carro

Dás-lhe uma nova alegria

Ai se te agarro…

nem sei o que te fazia

 

O cão cá em baixo

e tu aí em cima

deixam qualquer gajo

sem vontade de fazer uma rima

 

ups II

Publicado Setembro 7, 2008 por Nuno Abreu
Categorias: Uncategorized

Uma vez mais, por motivos que desconheço – embora a azelhice seja a causa mais provável – o editor automático do wordpress não publicou o texto de domingo passado.

Fica o texto em falta e o desta semana.

Política

Publicado Setembro 7, 2008 por Nuno Abreu
Categorias: Uncategorized

Tags: , , , , ,

O Governante-Mor

O Governante-Mor precisou de uma finalíssima do concurso Eu Prometo, para levar de vencido o Eterno Candidato a Governante-Mor.
            Ouvia-se um burburinho nas bancadas. O Eterno Candidato a Governante-Mor estava preparado como nunca para vencer as eleições/concurso televisivo. Já tinha garantido a panela de pressão, o skate, a viagem a uma ilha paradisíaca e o sofá com massagens. Faltava-lhe apenas ganhar o veículo oficial – o troféu do concurso. O Outro Finalista do Concurso – que, sem querer estragar a surpresa, viria a ser o Governante-Mor – estava atrasado, mas a última promessa podia dar a vitória a qualquer um.

O Eterno Candidato a Governante-Mor prometeu baixar os impostos. Era o seu grande trunfo e não se adivinhava qualquer promessa que conseguisse roubar-lhe as chaves do veículo oficial.
           Os candidatos de bancada concordavam que a vitória estava assegurada. Nunca, nas outras eleições/concursos televisivos, alguém tinha conseguido ultrapassar a promessa de baixar os impostos.
           O Outro Finalista do Concurso estava misteriosamente calmo. Tinha um trunfo, ninguém duvidava. Mas qual? Que promessa podia dar-lhe tanta confiança?
           O apresentador, também ele expectante, fez a pergunta:
           – Desiste, ou quer subir a fasquia? – nas bancadas o barulho das gargalhadas era ensurdecedor. Subir a fasquia… impossível…
           – Quero subir a fasquia.
           Ouviu-se um “wow” e um “é maluco”.
           -Diga-me, então, o que tem a prometer.
           -Eu prometo…
           -Espere só uns minutos, que vamos para um curtíssimo intervalo.
          

 Depois do curto intervalo de trinta minutos, deu-se o momento por que todos esperavam.
            -Boianenses, chegou o momento por que todos esperam! Prometa lá, então. – o apresentador lançou o repto, depois de contar a história do concurso e de explicar por que razão um quilo de algodão pesa o mesmo que um quilo de ferro.
            – Eu prometo introduzir treze novos feriados, dos quais nove dão direito a ponte.
            Lançaram-se confétis, arroz e uma melancia. Nas bancadas fazia-se a onda. Era este líder que Boião precisava, sem dúvida.
            Na curta entrevista que se seguiu à entrega das chaves do veículo oficial, o Eterno Candidato a Governante-Mor, lavado em lágrimas, assumiu a derrota:
            – Aceito a derrota, agradeço o apoio que me foi dado e deixo o aviso: vou andar por aí. A promessa do Governante-Mor foi muito ambiciosa e eu duvido que a consiga cumprir e por isso digo e repito: vou andar por aí.

            O Governante-Mor licenciou-se em Construção de Marquises, um negócio fortíssimo em Boião. Era de uma competência tal, que somava uma inesgotável quantidade de cargos políticos, entre os quais convém destacar, pela importância vital para a sociedade boinenense: Associação Dos Amigos Que Querem Mais Sal no Arroz nos Restaurantes; Chefe-Maior da Confraria dos Amigos do Vinagre; Presidente da Mesa da União Gastronómica Amigos do Garfo; Líder do Movimento Jogos Olímpicos em Boião – Sonho ou Realidade?; Presidente do Conselho Ético e Deontológico da revista À Espreita; Presidente do Clube Desportivo A Taça é Nossa e fundador do Comité de Inquérito Marquises, Que Futuro?
           O seu braço direito no novo cargo, o mais importante que um político/concorrente de concursos televisivos, pode almejar, era o Lábias, cujo feito mais extraordinário, segundo consta, é o de ter reivindicado, com sucesso, o direito à reforma, acabado de celebrar o seu 28º aniversário.

Rótulos e vida social

Publicado Agosto 31, 2008 por Nuno Abreu
Categorias: Uncategorized

Tags: , , , , , ,

Parte III

   Depois de servir o que Sancho Pança – ilustre escritor com uma proeminente barriga, que lhe valeu a alcunha que desconhecia – lhe sugeriu, e que era basicamente tudo o que havia disponível, o Jardineiro sentou-se ao lado da Mulher do Engenheiro. A Filha do Engenheiro cochichava com as amigas, as tais cujos peitos eram tão estranhos que parecia que estavam envolvidos em papel higiénico e apontou para o rapaz. Entre risos de hiena e “ai tipo, tens razão, tipo…”, a conversa das raparigas começava a atrapalhar o Jardineiro, que estava à deriva num mar de talheres.

   – Oh rapaz, faz como eu: espetas o garfo e levas tudo à boca, que os dentes fazem de faca. Deixa as etiquetas para as senhoras. – o conselho vinha do Sancho Pança.

   “Como é que ele sabe das etiquetas?”, pensava o Jardineiro. Pelo sim pelo não, tirou o rolo de etiquetas a dizer “Vaca 7,5 moedas o quilo”, que tinha no bufê de casa e que guardara no bolso para deixar no carro, mas que se esqueceu, e distribuiu as etiquetas pelas senhoras.

   A ousadia valeu-lhe uns valentes tabefes, dados pelas senhoras e umas valentes gargalhadas, dadas pelos senhores e pelo clã dos peitos esquisitos. O jardineiro, todos os sábados, ajudava na mercearia do Calvo – cujas prateleiras estavam tão carecas como o dono – e tinha feito aquelas etiquetas à mão.

 

   De estômago cheio e camisa manchada pelos salpicos de vinho que o Sancho Pança libertava de cada vez que falava, o Jardineiro levantou-se para ir à casa de banho limpar as manchas. Não foi preciso. De imediato apareceu-lhe um simpático senhor, todo aprumado, ao ponto de ser o único convidado de laçarote, que lhe trazia um copo com um líquido amarelado.

   – Moet & Chandon?

   – Muito obrigado, caro senhor. Adivinhou-me o pensamento.

   Aplicou de imediato o tira-nódoas oferecido pelo simpático senhor, que o Engenheiro tratava por garçon. O efeito do tira-nódoas foi imediato – “tenho de dizer ao Calvo para vender este tira-nódoas. Já me esqueci da marca, mas já pergunto ao senhor”.

   – Garre Som! – chamou. E lá vinha ele, com mais tira-nódoas.

  

   À saída, as senhoras que iam abraçadas aos maridos cambaleantes, eram unânimes. Todas tinham gostado da festa, à parte o indelicado do Jardineiro. “Foi óptimo”, diziam umas. “Foi fantástico”, diziam outras. “Foi tipo lindo, tipo…”, dizia o clã dos peitos esquisitos em coro.

  

 

  Na manhã seguinte, lia-se na capa da À Espreita: “Jantar volante em honra da Filha do Engenheiro foi um sucesso. Veja as fotos inéditas!”.

   A partir daí, passou a jantar-se-volante, no novo queiteringue do Velho Jardineiro (o bufê tinha ficado D Modê e o Velho Jardineiro não gostava desse tipo de caruncho).

 

  Quando o Jardineiro foi ao Café Cheio, a tasca do Emigrante, contar aos seus amigos que pai comprara um queiteringue novo para a sala de jantar-volante, ninguém quis acreditar. Até porque ninguém percebeu. Foram, então, ver o novo queiteringue do Velho Jardineiro e todos concordaram que era o queiteringue mais bonito que já tinham visto.

   Foram, então, comemorar para o queiteringue de bilhar do Salão de Jogos do Matraquilhos, campeão em 1969 (1968, corrigiu o campeão) do desporto com o mesmo nome, do liceu O Cantor, hoje a escola EBC+S=47 O Futebolista Que Ganha Mais Do Que O Engenheiro. Ninguém sabe ao certo o que significam as iniciais antes do nome da escola, mas o Crânio, o intelectual de entre os amigos explica: estrume bosta caganitos + seca – essa danada- é igual a 70 batatas, das quais 23 vão ser roubadas pelo Carroças, que as vai vender ao Solas, que por sua vez as vai vender ao Calvo.

 

 

 

 

 

No próximo domingo: Política – o Governante-Mor

ups

Publicado Agosto 28, 2008 por Nuno Abreu
Categorias: Uncategorized

por motivos que desconheço (talvez azelhice), os textos que tinha escrito e que esperava que fossem publicados automaticamente nos dois últimos domingos, não foram. peço desculpa pelo lapso.

Rótulos e vida social

Publicado Agosto 24, 2008 por Nuno Abreu
Categorias: Uncategorized

Tags: , , , , , , , ,

Parte II

   O Engenheiro espreitou pelo buraco da fechadura e viu umas calças que já haviam sido suas. Já sabia quem estava do outro lado. Estimava muito o Jardineiro. Um rapaz inteligente, dedicado e incrivelmente parecido com o seu amigo Muy Honroso e Ilustre Senhor Cancella.

   – Olá rapaz, entra.

   – Muito boa noite, senhor Engenheiro. Trago-lhe umas rosas.

   – As rosas não devem ser para mim… Diz-me lá, voltaste a seguir os conselhos do teu pai, não foi? É um grande homem, sem dúvida, mas não percebe nada deste coisas. As rosas são para a minha filha, rapaz.

   – Pois claro, que disparate. Nesse caso, trago-lhe um perfume.

   – Oh rapaz… Olha faz assim: entra e fica à vontade. – uma frase digna de Horatio Caine.

 

                                                                    

                                                       

    Em Boião, as mulheres, quando chegam aos 40 anos, por motivos que o Jardineiro desconhecia, ficavam todas loiras. Era o que se via, em casa do Engenheiro. Isso e muitas alterações morfológicas que ele não entendia: unhas encarnadas, pele de tez ligeiramente alaranjada, homens com cabelos castanhos em cima e grisalhos de lado, homens que era capaz de jurar que eram calvos, mas que afinal têm fartas cabeleiras, que se deslocam com o avançar da noite e raparigas com algo que se assemelhava a papel higiénico a sair dos seus peitos.

   Lá estava ela, a Filha do Engenheiro. As suas unhas tornaram-se pretas – “querem lá ver que miúda andou a mexer nas minhas plantas”, o cabelo estava esticado – “Deve ser das brincadeiras com o Mais Novo do Engenheiro, que tem a mania de lhe puxar os cabelos”, os seus peitos tinham crescido – “picadas de abelhas… andou mesmo a mexer nas minhas  plantas!”, a sua tez também estava subitamente mais escura – “e deve ter estado muitas horas de volta das plantas, para se ter queimado tanto” e tinha um cordão que lhe saía de dentro das calças, na parte da trás e que parecia que lhe dava a volta à cintura – “deve ser para manter as meias para cima. Agora até fazem suspensórios para as meias, estou a ver”.

   – Então, o senhor diga-me, tem quintas? – a voz nasalada pertencia a uma senhora muito morena, com as pálpebras brancas “deve andar sempre de óculos escuros. Se calhar o marido bate-lhe”.

   – Às quintas, infelizmente estou ocupado, que eu faço um biscate em casa da Coitada Foi Abandonada Pelo Marido, mas tenho as tardes de sexta disponíveis, se estiver interessada. Que tipo de plantas tem?

   – Tem sentido de humor, o rapaz. – e deu uma gargalhada tal, que o rapaz estava capaz de jurar que viu um bocado de um queque vir-lhe à boca.

 

   Não faltava ninguém da alta sociedade de Baião, naquela festa. Até lá estava o Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas, um riquíssimo proprietário, outrora o mais famoso toureiro de Boião (e arredores, acrescenta o próprio, com a concordância do Engenheiro). O Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas era casado com a mulher mais bonita que o Jardineiro alguma vez vira. Na verdade, considerava a Assistente Pessoal do Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas, que preferiu manter o nome de solteira, a mulher mais bonita de Boião (e arredores, acrescenta o Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas, com a concordância do Engenheiro e com um “Oh se é…”, de todos os homens presentes na sala).

   Sentou-se à mesa e pensou que o que via era uma homenagem ao Muy Honroso e Ilustre Senhor Farpas: uma infinidade de garfos e facas. Continuou a prospecção e assustou-se com a quantidade de copos e colheres que tinha à sua frente – “os copos é um para cada vinho, sim senhor, faz sentido e as colheres, presumo que seja sinal de que sobremesas não faltarão”.

   – Isto é um buffet – explicou a Mulher do Engenheiro, apontando para a mesa repleta de iguarias – sirva-se e sente-se ao meu lado, que me faz companhia. Não cabem todos sentados, mas para si há lugar.

   

   Pois bem, aquilo a que o Jardineiro e o Velho Jardineiro chamavam de mesa, na sua humilde casa, na mansão do Engenheiro é um bufê. Quando o Velho Jardineiro ouviu essa história, resolveu passar a chamar bufê à sua mesa e mais, no dia seguinte, foi comprar um bufê novo para a sala de jantar, que o seu já era herdado do avô.

   – Quero um bufê para a sala de jantar, barato mas bonito. Pode ajudar-me?

   – Lamento, caro senhor, mas aqui não disponibilizamos o catering, apenas o mobiliário.

   “Afinal o bufê também pode ser chamado queiteringue”, pensou o Velho Jardineiro. “As coisas mudam com o tempo, não haja dúvida”.

 

 

 

Continua no próximo domingo